10.7.12

A analogia do cheio que está vazio e vice-versa.




Imagine que sua vida é um retângulo, que não há caminhos novos a percorrer e que está fadada a constante repetição. As linhas que, ora longas, ora curtas, se tornam cada vez mais densas com o passar das pessoas, mas que nunca se alteram. Não há percursos diagonais; apenas encontros de duas retas que nunca formam novas esquinas. O Senhor que te deu a mão no inicio da sua jornada é o mesmo que te repreendeu tempos depois. A mulher que chorou é também a mesma que agora rir, sem mesmo saber os motivos. 

As linhas, que teimamos em chamar de caminhos, continuam sua sina de serem as mesmas para todos, sendo que apenas alguns recebem a graça de saber qual é o momento ideal e param. Outros, por qualquer razão, se sentem obrigados a seguir e se questionam diariamente, de forma constrangedora e assustadora. Perdidos que são, são compelidos a uma jornada de perspectivas dúbias, de vontades que se confundem com a inexistência, sem sequer imaginar a hora certa de qualquer coisa.

O centro do retângulo está vazio... Ou está tão cheio que não há espaço para mais nada? Às vezes, e não muito raramente, o fato de algo está cheio demais só significa que ele está se esvaziando. Nem sempre aquilo que está inteiro se encontra satisfeito com a sua própria condição, e em razão disso, tenta constantemente se esvair. Pra qualquer lugar, sem qualquer ordem. É do cheio que nasce a necessidade de ir. É do vazio que surge a necessidade de ser.

Comumente nos vemos obrigados a lidar com situações onde o vazio precisa se encher, nas quais, quase nunca é permitido o cheio se esgotar. O cheio está fadado à alegria e o vazio, ao descontento ou seria o contrário? Não há saída, de acordo com a Máxima, tudo que é excesso se destrói, ainda que esteja pairando em metades. E o mesmo retângulo que não nos deixa mudar de caminhos, também não nos permite olhar além das suas linhas. Ficamos, assim, inconscientemente presos ao básico que a vida nos permite. Sujeitos a empurrões daqueles que vem logo atrás, sem ao menos poder esperar que algo se ultrapasse.

Vida esta que insistirá na mesmice até que o vazio ou o cheio transborde e nos leve a ultrapassar coercitivamente as linhas travadas do “mais do mesmo”, sendo fundamental para isso que continuemos andando. Percebe-se, portanto, que os que recebem a graça de saber aonde vão e aonde devem parar, lidam também com a perspectiva da maldição, àquilo que é fixo e certo, nunca poderá se ultrapassar. Assim, ninguém está plenamente livre dos constantes cheios e vazios.

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