16.11.11

"E o que eu era, eu não sou mais..."



Só precisei folhear uma parte das dezenas de livros que deixei na estante com a leitura interrompida durante esse longo ano, para lembrar do quanto terminar alguma etapa importante na vida me assusta e me afoga em melancolia. Tudo que eu poderia ter feito diferente e todas as escolhas que me modificaram versus a aflição que o “novo” gera dentre aquilo que eu posso fazer diferente e aquilo que eu devo escolher para não cometer sempre os mesmos erros.

Antes fosse apenas o medo de enfrentar um novo estágio, de cair no abismo das descobertas, de arriscar. Mas é só a angústia de ir, sabendo que não se pode voltar caso haja necessidade. Sem ter ao menos para onde voltar... E essa vontade de retornar sempre teima em existir e insistir. Voltar a ser, mais uma vez, aquilo que foi outrora, só pra lembrar por um momento qualquer coisa já perdida. Mas ainda que haja a possibilidade de voltar, nada seria o mesmo, nunca é o mesmo. Passa-se um dia e algo muda, passam-se décadas e nada é semelhante ao que já foi. Nem com relação a nós mesmos.

Ao contrário dos livros, eu não posso parar a vida, ainda que eu quisesse. Não posso nem sequer voltar para o meu trecho preferido e ficar lá até a calmaria retornar, só por ficar. Sem ser pressionada pelas urgências que a vida promove, nem pelas pessoas que nos comovem com suas expectativas e quereres. Morar num verso de Quintana, me hospedar numa poesia de Rubem Alves, abraçar uma personagem de Caio F. ou de Clarice e avisar que vai ficar tudo bem.

        Mas não dá! Com a vida aprendemos a lembrar e a nos contentar com o pouco, aprendemos também a torcer para que a nossa memória não nos traia e a lembrança permaneça e de preferência apenas aquelas que afagam a nossa saudade. Não existe um marcador de páginas que nos leve diretamente àquele breve instante, nem canetas de cores diferentes que nos retorne a alegria anterior.

O mesmo serve para os discos, a vida não permite que a pausemos a qualquer momento tal qual fazemos com a nossa musica preferida. Não nos deixa repetir o mesmo instante de felicidade em um loop infinito. E mesmo que vez ou outra aconteça de o mesmo trecho se repetir, a estrofe seguinte teima em se modificar. Não existe nunca um mesmo refrão. O que talvez conforte é que sempre há espaço para várias interpretações, ainda que curtas e passageiras.

A vida, o livro, a música. Tantas comparações e nada está livre das contradições. Tantos motivos para ir e tantos para ficar, tantos medos para confrontar e tudo que nos resta é a obrigação de continuar sem parar muito pra pensar. O pensamento é o marcador de páginas que usamos para pausar a vida e adiar o futuro, ainda que por breves instantes.

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