30.6.11

Riso e esquecimento.


Há alguns meses numa dessas arrumações de casa onde metade de tudo acaba no lixo, dei de cara com um livro de Milan Kundera chamado “O livro do riso e do esquecimento”. De todos os títulos de livros ali jogados, esse foi o que mais me deu margem para imaginar sobre o que tratavam todas as linhas das páginas já amareladas, com cheiro de livro usado. Ao abri-lo notei que nunca fora lido antes, dá para saber pelo trato das folhas, pela falta de anotações nas margens, pelas paginas que não foram amassadas nenhuma vez, pelo amor aos livros. Nem o mais cuidadoso dos leitores conseguiria ler sem deixar vestígios e se conseguisse, seria apenas um leitor banal e não um amante das palavras.

Quando começamos a ler determinado livro, inevitavelmente amassamos paginas, rabiscamos uma ou outra coisa, mesmo que isso seja quase invisível. A paixão pelas linhas é maior que qualquer cuidado e organização.

Ao folhear sem pretensão alguma, encontrei uma passagem onde um personagem gritava que não era, que não existia. Um escritor desesperado que não acreditava mais em sua própria existência. Toda a continuação do trecho se resumia a explicar que os homens quando começam a escrever não são mais homens, mas sim universos que colidem entre si. É perfeitamente possível a existência de vários homens, mas não a existência de vários universos.

Se existir uma rua com vários escritores, essa na verdade, não mais existirá.
Cada escritor com seu próprio universo, criando seus demônios e seus deuses, sua própria idéia de paraíso e inferno. Cada qual com as suas incertezas, suas dores, suas alegrias mesmo que ínfimas, com seus remorsos e suas vontades. Um escritor, um universo e suas próprias verdades ignorando facilmente todas as outras.

E terminava assim: “Quando um dia (isso acontecerá logo) todo homem acordar escritor, terá chegado o tempo da surdez e da incompreensão universais”.

Temo que esse tempo tenha realmente chegado e totalmente distorcido como todos os outros. Mas nem todos os homens acordaram escritores...

Um comentário:

Anônimo disse...

Cara, ler um texto de alguém que não acordou simplismente uma escritora, mas nasceu assim com esse encanto pelas palavras, falando de um dos meus escritores preferidos, por meio de uma visão clara de um livro incrível, me faz escancarar um sorriso que que só é possível aqui, nesse blog lindo.

=)

Mônica.