7.5.11

Extra!




Finalmente conseguirei viver sem dramatizar, sem supervalorizar, sem trocar os pontos chaves da equação. Poderei escolher o caminho certo ou até o errado, não importa. O que interessa é que me livrarei das dúvidas durante a trajetória, que poderei voar pelos caminhos bonitos e passar sem medo algum pelos tortuosos. Terei convicção que minhas escolhas foram acertadas, não mais me abalarei com as tragédias cotidianas nem com os pobres de espíritos, que insistem em tornar mais difícil a minha existência. Não sentirei aquela sensação de soco no estomago quando presenciar uma injustiça, nem questionarei mais as verdades que me são dadas. Concordarei com tudo e todos e não mais desconfiarei da honestidade dos que me cercam ou tampouco elogiarei os que agirem acertadamente. Não sentirei mais aquela mão entrando pela minha garganta, fazendo questão de me mostrar o quanto o mundo pode ser feio, o quanto a vida pode ser densa. Conseguirei sobreviver a mim mesma, sem questionar, sem tentar consertar os defeitos, sem tentar abstrair tudo que me incomoda e me desestrutura. Sentindo menos, bem menos.

Está decidido, comprarei um pacote de paz interior.

Outro dia vi a promoção mais incrível de todos os tempos: “Paz interior com até 60% de desconto”. E me pus a pensar em o quanto eu conseguiria achar o mundo bonito e livre se metade da minha inquietação fosse retirada de mim. Se não existisse mais essa mão dentro do estomago me lembrando repetidamente durante o dia que eu continuo viva e que as coisas não são tão fáceis como me disseram. Como eu caminharia menos torta sem esse peso nas minhas costas, sem essa densidade no meu espírito, sem essa mania de sentir demais, de pensar demais tentando consertar o mundo-e-todo-o-resto-das-coisas que não são consertados tão facilmente. Que eu finalmente poderia andar por ai sem me incomodar em me consertar dia após dia. Leve, como todas as coisas devem ser.

E então me ocorreu que para ter tudo isso, eu teria que perder as palavras. Parar de escrever é a consequencia seguinte a de parar de sentir. Ter a inquietude substituída pela tão sonhada paz interior me fazia morrer antes do fim. Desistir na metade de tudo isso. Aceitar o que eu não quero. Concordar com o que não me convém. Suportar o insuportável e adentrar numa inércia daquelas semelhantes a dores intensas, onde de tanto doer, para de incomodar.

Parte de mim começa a preferir a inquietude exacerbada a ter que abandonar todos os questionamentos e insatisfações nessa busca incessante por algo melhor, para mim e para o mundo-com-todo-o-resto-das-coisas. Eu não saberia lidar com essa paz e ela aos pouquinhos iria me anestesiar até me colocar fora do jogo.

E não mais que de repente, paz interior começou a parecer muito com conformismo. E conformada é tudo o que eu não consigo ser. 

Um comentário:

Danubya Medeiros. disse...

Estupendo texto.Uma ótima leitura eu fiz.
Acredito que também faço parte do ''pacote'', de pessoas que não nasceram para se conformar com tudo, e que não compram toda, e qualquer verdade que vendem por aí.
Eu adoro, vir te ler.
Beijo, Aninha!