4.3.11

O Salto.



O que nos aproxima de um escritor é justamente a capacidade que ele tem de se inserir no nosso cotidiano. Abrimos um livro qualquer e encontramos nossa vida ali. Dão a isso o nome de identificação, eu prefiro chamar de sorte. Não é sempre que alguém consegue falar sobre nos e também não é fácil escrever sobre o que nos incomoda ou nos traz alegria, aliás, não é fácil colocar em uma frase o que pensamos e sentimos tudo junto numa coisa só.

Outro dia, lendo Martha Medeiros me deparei com um texto chamado “A pior vontade de viver” e a única coisa que saiu da minha boca após a leitura da crônica foi: “era exatamente isso”. Tudo aquilo que eu queria dizer e não sabia como, estava ali. Tudo aquilo que eu quero ser e não sei bem como me conduzir, estava perante os meus olhos e não tinha sido escrito por mim.

A pior vontade de viver não veio de Martha Medeiros, mas de Clarice Lispector. A pior vontade de viver é também a melhor. A revolucionária e constrangedora reviravolta em nossas vidas. Constrangedora porque quando nos tornamos adultos começamos a ter vergonha da felicidade, como se isso fosse totalmente prejudicial aos que nos cercam. Não sabemos mais lidar com o outro e temos uma tendência a pensar que estamos incomodando com a nossa alegria. E sabe do que mais? De fato estamos, mas e daí?

O que eu enxergo não são pessoas buscando a sua felicidade, mas sim a infelicidade de outrem. Se aquele que te cerca está infeliz e perdido na própria vida, ai sim, fica tudo bem porque estamos todos no mesmo nível. Se alguém atira tudo pro alto e deixa de se importar com a opinião alheia, este deve ser transferido para a zona de perigo, da onde devemos manter certa distância porque no fim das contas, é difícil encarar a nossa verdade e abraçar essa coragem. É imensamente complicado ver que outro conseguiu fazer exatamente aquilo que queríamos, mas o comodismo ou a vergonha, ou mesmo a covardia não nos deixou fazer.

Então é isso, pare de reclamar e pegue a sua pior vontade de viver e saia por ai fazendo sua vida fazer algum sentido. O mundo está cheio de pessoas fazendo o que mais odeiam por uma infinidade de motivos e deixando aquilo que realmente importa adormecido no travesseiro. Contente-se com o velho e usual ou corra atrás do novo, mas não fique culpando a vida ou as pessoas por não terem te dado à oportunidade dos seus sonhos. A culpa por fazer ou deixar de fazer algo é inteiramente nossa, somos responsáveis pelas nossas escolhas e suas consequências, estejamos nós felizes ou não com isso. Somos inteiramente responsáveis pelas nossas vidas.

Seja corajoso o suficiente para anular as convenções e encontrar o seu melhor sem olhar a casa do vizinho. Peque pelo excesso antes que a falta te consuma até que você perca a sua identidade. Se todos fizessem exatamente isso, talvez esse mundo não parecesse tão frustrado quanto é agora.

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