5.12.10

Você pode me ouvir?


É isso. O tempo passa e vamos acumulando centenas de assuntos intocáveis, textos que não devem ser lidos, mágoas que vamos tentando anular e dores que temos certeza que podemos resolver sozinhos. Listas e mais listas na tentativa de fazer um breve resumo do lado oposto àquele que geralmente as pessoas percebem ou que as deixamos perceber. Trancados em casa somos um tipo de pessoa, ao sair na rua somos outra um tanto diversa daquela e não falo de dupla personalidade ou algo semelhante, mas de uma simples máscara protetora (que no mais é sempre necessária por uma questão de preservação), a personalidade continua a mesma estando você fora ou dentro de um ambiente, acompanhado ou não, apenas a forma de se mostrar que é diferente, como se o mundo estivesse desabando por baixo do velho sorriso ou da velha piada dita na fila do pão.
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Vivemos em “sociedade” e as pessoas têm opiniões diversas e julgamentos são feitos com tamanha facilidade que não sobra tempo nem para o pensamento invadir e entender determinados pontos; juízos de valores são postos a priori e este é o grande responsável por apertar o gatilho nessas relações interpessoais. Não da pra saber o que acontece com cada um que está a sua volta, se a pergunta não foi feita, se o espaço não foi aberto para que essa pergunta possa existir. Também não da para falar sobre o turbilhão de coisas que se traz consigo se o outro não estiver disposto a ouvir. E quando falo em disposição, não falo em ouvir por fingimento ou com aquela velha cara de tédio, mas em prestar atenção em cada coisa a ser dita, sendo um bom ouvinte mesmo que não consiga pronunciar nenhuma palavra durante esse espaço de tempo. Simplesmente por querer sê-lo. O mundo está montado na mecanização das relações e na impessoalidade.
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Pessoas passam pela rua sem se cumprimentarem. Dão bom dia, boa tarde e boa noite apenas para mostrar alguma educação. Algumas estão tão desesperadas por um pouco de atenção que conversam sozinhas pelas ruas e disfarçam ao avistarem outra pessoa, comentando sobre o tempo ou sobre um acontecimento qualquer para que não pensem que ela está louca. Somos um retrato vivo da solidão acompanhada. Somos insanos mergulhados no nosso intimo, enxergando apenas o próprio umbigo enquanto o mundo que nos cerca desaba. E o relógio conta o tempo que depois não poderá ser recuperado e aquele telefonema que você não fez; aquela palavra que você não disse, aquele abraço que você deixou pra depois começa a fazer falta não para aquele a quem você deveria se emprestar um pouco, mas unicamente a você mesmo.

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