24.4.10

~ cachorro.

"Ao menos voltou a latejar o bicho, a única coisa que me cura de ter tanto medo de não ser um humano exemplar. Aos poucos ele me mostra como é fácil só respirar e ter fome e dormir e extravasar e ter raiva e abaixar o rabo quando vale a pena. Só isso. A simplicidade de existir, sem precisar super existir. E ter faro ao invés de desejo. E ter necessidade ao invés de angústia. E uivar ao invés de colocar o remédio embaixo da língua pra dor passar antes do meu cérebro virar um ovo frito. E poder andar de quatro sem a humilhação de não parecer acima das pessoas que me parecem tão inferiores. E não precisar arrumar desculpa para, de repente, cagar em tudo ou dar um tempo longe dali. O cachorro esfaqueado, derretido, empalhado, a massinha de cachorro dentro de uma caixa. A caixa que vai na reunião e sorri. A caixa que paga tantas contas. A caixa que mora e frequenta e tem e compartilha e sustenta e fica. Verbos transformados em substantivos por causa da evolução dos atos. A essência transformada em dureza pra durar mais e eu só querendo, sempre, ir embora logo. Ar, er, ir. Ser no infinitivo, com a brevidade de uma raiz, com a profundidade de um instante. Tirar a coleira que tanta dor me dá no pescoço. E correr num parque atrás de algum brinquedo ou cu alheio. E me roçar nos mijos das paredes dos prédios dos bairros...
E eu escuto: seu erro é usar a única força que te mantém viva pra fazer teatrinho de gente."

Um comentário:

Chantal Garrett disse...

Temos muito mesmo o que aprender com os animais.

;*