1.4.08

Sétimo andar (19)


Começou cuidadosamente a abrir a primeira caixa com a palavra alegria estampada e sua face ainda criança e a figura de um casal que há tomavam em seus braços, mas ela não podia reconhecê-los. Pensou que poderia ser seus pais, mas não se lembrava deles. Uma estrema melancolia a invadiu, ela quase pode sentir o abraço deles novamente, mas a caixa se desintegrou antes do alcance das mãos dela.
Tomada por um choro em sua alma, correu até outra caixa, do outro lado da sala... Não pode ver a palavra escrita e nem se quer abri-la, o inesperado a frustrava, considerou aquilo uma afronta a sua esperteza e atirou a caixa contra a janela, mas nada aconteceu.
E foi abrindo caixa a caixa, e cada uma representava uma parte de sua vida que ela omitiu ou queria esquecer. Cada sentimento não demonstrado, cada solidão sentida, toda dor acolhida foi se revelando nela.
Como se tudo aquilo fosse um castigo ou quem sabe a sua salvação? Já não conseguia distinguir nada a sua volta, ainda mais o que estava em seu ser. Ela nem se quer aprendera a ser. Ou não se permitiu saber. Tudo estranhamento obvio demais. E devido a isso, afetava tanto o seu eu.
Como se tudo que ela resolveu esquecer voltasse pra atormentá-la, voltasse para destruí-la. Ela não queria se entregar, mas estava fraca em demasia, seu espírito fatiado e seus muros derrubados por uma força maior que ela. Já não podia seguir sem saber o que fazer.
Tudo nela era bem calculado. O acaso não condizia com sua natureza observadora, negadora e auto-excludente, queria saber o que aquele lugar planejava pra ela, mas nem teve tempo...
As luzes se apagaram e duas janelas se abriram!

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